terça-feira, 16 de setembro de 2008

Esquerda e direita

Direita, esquerda. Esquerda, direita. Lados, posições, direções. Do corpo, do espaço geográfico, da política. São palavras de longa história no Ocidente. São usadas de forma excludente: ou, ou. Mas são dois lados da mesma moeda. Poderiam ser uma alternância de passos e gestos em direção ao Norte: e, e. Acrescentar em lugar de dividir. Avançar por outros caminhos em busca de novos sonhos.

Entrevistas

O que é esquerda? O que é direita? Qual a diferença entre um partido de esquerda e um de direita?

Geraldo Correa da Silva, jardineiro:
Esquerda? Tem várias coisas. É um lado, um lado que movimenta.
Direita é a mesma coisa, só que é o contrário. É o outro lado.
Partido de direita ou de esquerda é coisa de política, não faz nenhuma diferença porque não entendo.

Alessandra Lemes Ferreira, fisioterapeuta:
Esquerda é uma direção, um lado.
Direita é o lado oposto, o contrário de esquerda.
A diferença entre partido de direita e esquerda é a forma de definir um posicionamento, a forma de pensar dentro da política. A esquerda é como se fosse o contrário, a minoria.

Peter Sola, empresário:
Esquerda inicialmente é a oposição.
Direita é a situação.
Então Lula é de direita? Não. Só originalmente a situação é de direita.
A diferença entre a esquerda e a direita hoje é que a esquerda é mais socialista e a direita mais capitalista.


Significados

Esquerda – a palavra vem do espanhol izquierda, cuja raiz euskera (basco, celta, catalão) significa a mão torcida, mais fraca, desajeitada, que se dobra. Evoca também o lado esquerdo do corpo, o lado do coração, dos sentimentos.

Oposição popular à tradição - o significado político veio da França, com a Revolução Francesa. Na Assembléia Nacional de 1789, os representantes da nobreza e do clero católico sentaram-se do lado direito e no lado esquerdo ficaram os representantes das demais categorias – comerciantes, artesãos, professores, médicos, advogados, banqueiros, agricultores etc. A palavra francesa gauche já era usada como referência à mão esquerda e tinha a conotação de algo constrangedor, sem graça, dissimulado; o alinhamento à esquerda também fazia referência ao confronto com o inimigo. A partir de então, a esquerda passou a designar as forças de oposição ao poder conservador.

Vanguarda cultural - na virada do século XIX para XX, surgiu uma nova conotação. Nessa época, os bairros situados à margem esquerda do rio Sena, em Paris, passaram a abrigar as atividades culturais, artísticas e intelectuais.

Destruição - em italiano, a palavra é sinistra, cuja raíz latina evoca o mau agouro, que traz algo destrutivo, o mal.

Mudanças - em inglês, a palavra left surgiu inicialmente como algo desajeitado, fraco, abandonado, errado e até mesmo ilícito. Ao mesmo tempo, faz referência ao lado esquerdo do corpo e à direção oeste. Hoje a palavra left, no contexto político, refere-se a grupos que defendem e apóiam mudanças econômicas e políticas em prol do bem-estar público.

Segundo o Aurélio, no contexto político esquerda é o grupo de oposição no Parlamento, o partido de reivindicações populares, trabalhistas, socialistas e comunistas.

Direita – no contexto político, a palavra ficou associada à defesa das tradições e da permanência do status quo. De forma geral, o termo direita hoje refere-se a grupos e partidos conservadores.

Segundo o Aurélio, direita é o grupo da maioria no parlamento, um partido ou regime de tendência totalitária (sic) e capitalista. a origem latina remete a dirigir, alinhar, regular, em linha reta. Seus significados incluem correção, retidão, direção, seguir regras e preceitos pré-determinadas, rigidez, força, estar do lado da lei e da justiça.

Em inglês, right evoca o lado direito do corpo e a direção leste; significa reto, correto do ponto de vista moral ou legal, justo.

Em francês, droit também vem do latim e evoca o que é favorável, auspicioso, justo, honesto, leal, adequado e de bom senso. Para homenagear alguém, coloca-se a pessoa do lado direito de quem preside uma mesa ou reunião. Na Idade Média surgiu o significado de conjunto de leis e aplicação da justiça – le Droit (o Direito). Na política, direita deriva da Assembléia Nacional Francesa de 1789, em que os representantes da nobreza e do clero católico sentaram-se do lado direito e no lado esquerdo ficaram os representantes das demais categorias – comerciantes, artesãos, professores, médicos, advogados, banqueiros, agricultores etc.

Opinião


As idéias de esquerda e direita se confundem no contexto nacional. No Brasil, tanto a esquerda como a direita floresceram sob a influência dogmática da religião cristã e à sombra de regimes ditatoriais, nacionais e estrangeiros. Por outro lado, a experiência econômica ficou à margem tanto do capitalismo como do socialismo. A ditadura getulista teve inspiração fascista e travestiu o totalitarismo com o populismo. Se por um lado instituiu novos direitos trabalhistas, por outro definiu as relações de trabalho como uma luta por privilégios, onde só um lado pode ganhar: o patrão ou o empregado (nunca os dois). Ao mesmo tempo, fincou o controle do Estado sobre a atividade econômica, de forma a ter o poder de impor restrições ou liberar favores em troca de apoio. Foi nesse contexto que nasceu o movimento sindicalista brasileiro. A ditadura militar teve como inspiração a luta contra o comunismo e fez uso explícito da força para garantir sua ordem. O desenvolvimento econômico era a meta, com base em estratégia e planejamento, logística e infraestrutura, ciência e tecnologia. Ao mesmo tempo, impediu a expressão e a participação, fazendo do desrespeito aos direitos humanos a regra para garantir o controle do Estado sobre a informação e a ordem a qualquer preço. Foi nesse contexto que floresceram as pastorais cristãs e as ONGs, cuja principal estratégia era capacitar para a organização e a mobilização.

Persiste no Brasil uma mentalidade colonial, que coloca o espaço coletivo numa terra de ninguém a ser usada pelo predador, seja ele poderoso ou insignificante. Mas para construir uma nação é preciso ver o espaço físico e o meio ambiente como uma extensão de si próprio. Não um mundo branco e preto de mocinhos e bandidos. Nem um mundo cinza e homogêneo, sem dinamismo. Mas um mundo diverso e vivo, colorido com todas as nuances e variabilidades, onde todos os seres que ali estão tenham a oportunidade de criar um espaço próprio e exercer sua diferença conforme seus desejos, necessidades e capacidades. A busca desse equilíbrio começa no acesso à educação.

3 comentários:

Unknown disse...

Pois é, Regina...

Esquerda, no Brasil, é sinônimo de outras simplificações...

Tudo o que é ético, só pode ser de... esquerda.

As pessoas inteligentes só podem ser... de esquerda.

O bom teatro e o bom livro trazem uma crítica social que certamente partiu de um pensador ou artista... de esquerda.

A boa teoria acadêmica para analisar a sociedade, a cultura e a educação precisam ser críticas à desigualdade social e, por isso são de...esquerda...

Se é ecologicamente sustentável, é de esquerda... se polui, com certeza é de direita...

Kafka vive (ou Lewis Caroll, como bem lembrou o Helio Gama). Aboliu-se o pensamento em nome do politicamente correto.

Pergunta para te convidar ao debate: quando o Barack Obama critica o discurso racista da antiga geração de negros americanos ele é de direita ou de esquerda?

Abração
Beta

Maria Truccolo disse...

Puxa, Regina, de primeira!!! A educação talvez nos deixe menos maniqueístas e cegos, podendo ver claramente o eixo em que esquerda e direita no Brasil dão as mãos e saem correndo... pra bem longe do que queremos, claro.

Anônimo disse...

Reconhecer as mudanças, perceber a evolução, faz parte da maturidade social, que em síntese sistematiza fatos sociais. Inegavelmente evoluímos nossa visão de mundo, porque a globalização nos permitiu participar de um universo social mais complexo. A universalização da informação é a maior responsável por uma nova consciência coletiva. Pertencer efetivamente a uma sociedade globalizada requer a quebra de paradigmas diante da multiplicidade de verdades. Naturalmente a expressão direita e esquerda perde sentido e não causam mais impacto, tornando-se incapaz de definir uma corrente de pensamento que designe um lado a qual acreditamos pertencer. Passa a ser verdade a existência de multifacetas de lados, opiniões e crenças. Tal fato representa uma quebra em nossa herança binária, originária de nossa formação religiosa. Estávamos sempre entre antônimos: bem/mal, certo/errado, homem/mulher, direita/esquerda... Hoje podemos criar infinitas possibilidades entre dois polos. As combinações possíveis é que enriquecem nosso mundo, porque passamos a imprimir personalidade em nossas escolhas. Então viva o fim das esquerdas e das direitas em nome de um mundo melhor e "demasiadamente humano".