sábado, 4 de outubro de 2008

Além da imaginação

Pensar e imaginar

Devemos refletir sobre as palavras e também imagens que compõem nosso imaginário. Investigar como elas vieram para lá e para onde nos levam.

Imagine um ladrão. Qual é a imagem que aparece para você? Um mascarado com um porrete ou pistola na mão? Alguém invadindo uma casa ou escritório? Um cão latindo? Uma pessoa bem vestida mexendo em papéis, notas de dinheiro, cartões de crédito? Um hacker na internet? Um indivíduo com dólares na cueca ou na mala?

Imagine um fundamentalista. Seria um político, um religioso? Como é essa pessoa? Um muçulmano? Um clérigo da Inquisição? Um sionista? Um pentecostal? Quem sabe um magistrado decidindo contra liberdades individuais, pesquisa com células tronco, direito ao aborto?

Imagine o paraíso. Um jardim das delícias? Um universo particular com as pessoas e as coisas que você mais gosta? Uma epifania socialista? Uma chatice povoada de anjos assexuados?

E o inferno, como imagina? Serão os outros, como sugeriu Sartre? Diabinhos e labaredas? O comunismo pintado nas Seleções do Readers’ Digest? O liberalismo econômico do bordão fora FHC? As misérias no caminho de Dante?

Imagem, imaginar, imaginário

Se para pensar necessito palavras, para imaginar utilizo linhas e pontos que formam figuras, ícones, quadros, seqüências. Essas imagens podem ser visuais, sonoras, olfativas, gustativas, tácteis e metafóricas. Os sentimentos que evocam e as histórias que as acompanham integram o repertório da imaginação. Mas de onde se originam tais representações mentais? Do ambiente e do contexto cultural em que estamos inseridos; do que os sentidos apreendem em primeira mão, a partir do ambiente, dos seres com quem se convive, das vivências e lembranças, individuais e coletivas.

São muitas as portas de entrada para a percepção: a natureza, com as paisagens e todos os seres vivos e elementos inanimados que as povoam; os fenômenos físicos e o clima; o mundo construído pelo homem, com toda a infra-estrutura, a cidade, os meios de transporte e de comunicação, as máquinas, a tecnologia, a ciência; os idiomas, a música e todos os sons, as obras manifestações artísticas de toda a sorte; livros, jornais e revistas, cinema e televisão, tudo o que se acessa na internet; as relações sociais; e assim por diante. Quanto mais amplo e mais variado meu universo, de mais elementos disponho para construir meu imaginário.

É o contexto que ordena e formata essas imagens, influenciado pelo próprio indivíduo e tudo o que o cerca: o meio físico, a sociedade, a cultura.

O imaginário funciona também como um mercado de consumo poderoso: pode inspirar, gerar anseios, atitudes, mudanças, medos, ousadias. O efeito pode ser imediato e explícito ou ficar latente, arquivado, e despertar mais tarde por uma circunstância qualquer. Daí a importância da indústria cultural, que influencia nossos corações e mentes.

Significados

Imagem, imaginar, imaginário. É interessante observar que essas palavras são quase iguais em outros idiomas (espanhol, francês, italiano, inglês, alemão). A origem é latina e remete a imitação e a interior.

Imagem – a representação figurativa concreta de um ou mais objetos, pessoas ou situações. É como um desenho, quadro ou cena que descreve uma realidade, real ou sugerida. A imagem tem uma existência externa, portanto ela é coletiva.


Imaginar – fazer uma representação mental interna, livre, pensada ou sonhada a partir de um conjunto de imagens reais ou sugeridas. Imaginar é, portanto, uma atividade individual. Faz referência à realidade conhecida para projetar uma outra realidade. Seu significado contém idéias como visualizar, conceber, supor, cogitar, simular, adivinhar, antecipar, sonhar, fantasiar, desejar, idealizar.

Imaginário – o repertório ou universo de imagens, reais ou sugeridas, de que dispomos para imaginar. Pode ser individual ou coletivo (se aplicado a um grupo delimitado).




sexta-feira, 19 de setembro de 2008

SUGIRA PALAVRAS

Envie sugestões de palavras para pensar

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Obama

Obama

Beta Timm pergunta: quando o Barack Obama critica o discurso racista da antiga geração de negros americanos ele é de direita ou de esquerda?

Resposta: justamente, ele não se alinha nem à direita nem à esquerda, pois são posições ultrapassadas. Barack Obama representa uma nova linha de pensamento. Sua visão de mundo é global, não é unilateral, nem nacional ou regional. Ele personifica o homem moderno, multicultural e multi-étnico. E prega a conciliação, a construção de um consenso mínimo, a coexistência da diversidade. Esta é a sua modernidade. Por isso Obama é fashion, e não popular. E por isso, a possibilidade de ele ser eleito presidente dos EUA, que é o país de maior influência no cenário mundial, representa uma esperança para o mundo todo. (Regina Vasquez)


terça-feira, 16 de setembro de 2008

Esquerda e direita

Direita, esquerda. Esquerda, direita. Lados, posições, direções. Do corpo, do espaço geográfico, da política. São palavras de longa história no Ocidente. São usadas de forma excludente: ou, ou. Mas são dois lados da mesma moeda. Poderiam ser uma alternância de passos e gestos em direção ao Norte: e, e. Acrescentar em lugar de dividir. Avançar por outros caminhos em busca de novos sonhos.

Entrevistas

O que é esquerda? O que é direita? Qual a diferença entre um partido de esquerda e um de direita?

Geraldo Correa da Silva, jardineiro:
Esquerda? Tem várias coisas. É um lado, um lado que movimenta.
Direita é a mesma coisa, só que é o contrário. É o outro lado.
Partido de direita ou de esquerda é coisa de política, não faz nenhuma diferença porque não entendo.

Alessandra Lemes Ferreira, fisioterapeuta:
Esquerda é uma direção, um lado.
Direita é o lado oposto, o contrário de esquerda.
A diferença entre partido de direita e esquerda é a forma de definir um posicionamento, a forma de pensar dentro da política. A esquerda é como se fosse o contrário, a minoria.

Peter Sola, empresário:
Esquerda inicialmente é a oposição.
Direita é a situação.
Então Lula é de direita? Não. Só originalmente a situação é de direita.
A diferença entre a esquerda e a direita hoje é que a esquerda é mais socialista e a direita mais capitalista.


Significados

Esquerda – a palavra vem do espanhol izquierda, cuja raiz euskera (basco, celta, catalão) significa a mão torcida, mais fraca, desajeitada, que se dobra. Evoca também o lado esquerdo do corpo, o lado do coração, dos sentimentos.

Oposição popular à tradição - o significado político veio da França, com a Revolução Francesa. Na Assembléia Nacional de 1789, os representantes da nobreza e do clero católico sentaram-se do lado direito e no lado esquerdo ficaram os representantes das demais categorias – comerciantes, artesãos, professores, médicos, advogados, banqueiros, agricultores etc. A palavra francesa gauche já era usada como referência à mão esquerda e tinha a conotação de algo constrangedor, sem graça, dissimulado; o alinhamento à esquerda também fazia referência ao confronto com o inimigo. A partir de então, a esquerda passou a designar as forças de oposição ao poder conservador.

Vanguarda cultural - na virada do século XIX para XX, surgiu uma nova conotação. Nessa época, os bairros situados à margem esquerda do rio Sena, em Paris, passaram a abrigar as atividades culturais, artísticas e intelectuais.

Destruição - em italiano, a palavra é sinistra, cuja raíz latina evoca o mau agouro, que traz algo destrutivo, o mal.

Mudanças - em inglês, a palavra left surgiu inicialmente como algo desajeitado, fraco, abandonado, errado e até mesmo ilícito. Ao mesmo tempo, faz referência ao lado esquerdo do corpo e à direção oeste. Hoje a palavra left, no contexto político, refere-se a grupos que defendem e apóiam mudanças econômicas e políticas em prol do bem-estar público.

Segundo o Aurélio, no contexto político esquerda é o grupo de oposição no Parlamento, o partido de reivindicações populares, trabalhistas, socialistas e comunistas.

Direita – no contexto político, a palavra ficou associada à defesa das tradições e da permanência do status quo. De forma geral, o termo direita hoje refere-se a grupos e partidos conservadores.

Segundo o Aurélio, direita é o grupo da maioria no parlamento, um partido ou regime de tendência totalitária (sic) e capitalista. a origem latina remete a dirigir, alinhar, regular, em linha reta. Seus significados incluem correção, retidão, direção, seguir regras e preceitos pré-determinadas, rigidez, força, estar do lado da lei e da justiça.

Em inglês, right evoca o lado direito do corpo e a direção leste; significa reto, correto do ponto de vista moral ou legal, justo.

Em francês, droit também vem do latim e evoca o que é favorável, auspicioso, justo, honesto, leal, adequado e de bom senso. Para homenagear alguém, coloca-se a pessoa do lado direito de quem preside uma mesa ou reunião. Na Idade Média surgiu o significado de conjunto de leis e aplicação da justiça – le Droit (o Direito). Na política, direita deriva da Assembléia Nacional Francesa de 1789, em que os representantes da nobreza e do clero católico sentaram-se do lado direito e no lado esquerdo ficaram os representantes das demais categorias – comerciantes, artesãos, professores, médicos, advogados, banqueiros, agricultores etc.

Opinião


As idéias de esquerda e direita se confundem no contexto nacional. No Brasil, tanto a esquerda como a direita floresceram sob a influência dogmática da religião cristã e à sombra de regimes ditatoriais, nacionais e estrangeiros. Por outro lado, a experiência econômica ficou à margem tanto do capitalismo como do socialismo. A ditadura getulista teve inspiração fascista e travestiu o totalitarismo com o populismo. Se por um lado instituiu novos direitos trabalhistas, por outro definiu as relações de trabalho como uma luta por privilégios, onde só um lado pode ganhar: o patrão ou o empregado (nunca os dois). Ao mesmo tempo, fincou o controle do Estado sobre a atividade econômica, de forma a ter o poder de impor restrições ou liberar favores em troca de apoio. Foi nesse contexto que nasceu o movimento sindicalista brasileiro. A ditadura militar teve como inspiração a luta contra o comunismo e fez uso explícito da força para garantir sua ordem. O desenvolvimento econômico era a meta, com base em estratégia e planejamento, logística e infraestrutura, ciência e tecnologia. Ao mesmo tempo, impediu a expressão e a participação, fazendo do desrespeito aos direitos humanos a regra para garantir o controle do Estado sobre a informação e a ordem a qualquer preço. Foi nesse contexto que floresceram as pastorais cristãs e as ONGs, cuja principal estratégia era capacitar para a organização e a mobilização.

Persiste no Brasil uma mentalidade colonial, que coloca o espaço coletivo numa terra de ninguém a ser usada pelo predador, seja ele poderoso ou insignificante. Mas para construir uma nação é preciso ver o espaço físico e o meio ambiente como uma extensão de si próprio. Não um mundo branco e preto de mocinhos e bandidos. Nem um mundo cinza e homogêneo, sem dinamismo. Mas um mundo diverso e vivo, colorido com todas as nuances e variabilidades, onde todos os seres que ali estão tenham a oportunidade de criar um espaço próprio e exercer sua diferença conforme seus desejos, necessidades e capacidades. A busca desse equilíbrio começa no acesso à educação.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Grampos, o público e o privado

Em tempos de escutas legais ou ilegais, discute-se o público e o privado. O que está por trás disso? Numa primeira reflexão sobre essas palavras, o que sobressai é o contraponto entre a individualidade e a coletividade, valores essenciais que precisamos equilibrar para viver. Veja definições e opiniões de pessoas entrevistadas, de internautas e da autora do blog.

ENTREVISTAS

Jackeline Caixeta de Almeida, 23 anos, recepcionista e estudante universitária.
Público é o principal. A gente trabalha em função dele, para ele.
Privado é algo de quem alguém é dono.
Grampos? Acho ótimo, qualquer coisa que se faça para descobrir as falcatruas é ótimo, para melhorar nosso país.

Francisco José Araújo Martins, 42 anos, motorista de táxi
Público é órgão público, que está para todo mundo, é liberado.
Privado é um local ao qual algumas pessoas podem ir, mas não é para todo mundo.
Grampos? Para mim tanto faz. Só quem faz coisa errada, e aí tem que grampear mesmo, para a polícia pegar.

Conceição de Maria Barros Lima, 36 anos, empregada doméstica
Público é alguma coisa que a gente pode usar.
Privado é algo que poucas pessoas têm acesso
Grampo é invasão de privacidade


COMENTÁRIOS
Quem é que manda...
Grande idéia; ajuda a gente a pensar. Leitura obrigatória. Por favor inclua meu endereço no teu mailing. A propósito, gosto muito dessa idéia de cuidar das palavras, principalmente no sentido de cuidar do que a gente diz. Veja só esse trechinho de Alice no país dos espelhos, de Lewis Carroll: "Quando eu utilizo uma palavra - disse Humpty Dumpty, em um tom de grande sarcasmo -, ela significa exatamente o que quero que signifique, nem mais, nem menos. - Mas a questão é - disse Alice - se você tem o direito de fazer as palavras significarem para você coisas diferentes do que elas querem dizer para as outras pessoas!...- A questão é - afirmou Humpty Dumpty - quem é que manda aqui. Só isso."
Comentário de Helio Gama, jornalista

Maria Truccolo disse...
Na minha opinião, o problema não é o grampo, mas as falcatruas descobertas por ele. Se não há falcatruas, não há por que temer o grampo. Nunca vi notícia sobre conversas íntimas e pessoais sendo publicadas. Somente as que dizem respeito à coisa pública e isso me interessa muito, seja em qual for o governo e sob qual for a sigla que estiver no comando, porque somos nós, o público, que financiamos este país. A Abin deveria ser independente e grampear todos os envolvidos com a coisa pública (inclusive os membros da Abin). Quem quisesse ser "homem/mulher público", teria que aceitar esta condição. Selvagem? Sim. E quem disse que este país é muito mais civilizado do que isso?
16 de Setembro de 2008 17:50

Regina responde:
Não é tão simples assim, dizer quem não age errado não teme. As pessoas têm direito ao anonimato em sua vida privada. Quem não escolheu ser uma celebridade, não está disposto a expor suas intimidades. O grampo resulta em invasão da privacidade, mesmo que esse não seja seu objeto. Por isso é importante ter uma legislação que estabeleça critérios e regras claras, não apenas sobre a aplicação do grampo mas quanto ao material grampeado - quem terá acesso? o material será 'editado' ou armazenado em bruto? por quanto tempo poderá ser guardado? como preservar o contexto? São muitas as questões a serem reguladas. O mais difícil, nessa discussão, é que não se ignora que instituições que deveriam estar a serviço da sociedade estão, muitas vezes, nas mãos de pessoas cujos interesses são exclusivamente em função do benefício próprio ou de seu grupo. Outra coisa que não pode ser esquecida: qual foi mesmo o caso em que a falcatrua revelada pelo grampo resultou em punição de alguém com poder, ou ligado ao poder? É de se indagar qual foi o real motivo para o grampo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

SIGNIFICADOS

Em tempos de escutas legais ou ilegais, discute-se o público e o privado. O que está por trás disso? Numa primeira reflexão sobre essas palavras, o que sobressai é o contraponto entre a individualidade e a coletividade, valores essenciais que precisamos equilibrar para viver.

Público
Sua origem latina remete àquilo que é do povo, das pessoas – sempre no plural. Refere-se a um coletivo de pessoas, que pode ser composto da população em geral – a massa de gente - ou a um grupo caracterizado por uma área geográfica, uma cultura, ou interesses em comum.
O uso da palavra levou a outras conotações:
Conhecido – público significa notório, conhecido de todos.
Transparente – público significa exposto, aberto a todos, sem segredos, que pode ser acessado e divulgado.
Governamental – público significa que é do governo, suas instituições e representantes oficiais.
Social – público significa que é do interesse da sociedade ou que está a seu serviço, independente de ser, ou não, governamental.
Audiência – público significa um ou mais segmentos de uma sociedade que pode ser atingida, seja por uma determinada manifestação de idéias, artística ou de qualquer outra natureza, ou por um determinado produto. Tem uma conotação de mercado.

Privado – O sentido original da palavra, que também vem do latim, refere-se a algo colocado à parte, pertencente a uma única pessoa – sempre no singular. Privado contém a idéia de íntegro, de algo que não foi dividido nem compartilhado, desprovido da companhia de outros, delimitado.
Posteriormente, foram agregadas outras conotações:
Particular – privado significa algo singular e intrínsico, que pertence a um só indivíduo.
Íntimo – privado significa algo essencial e profundo, que está no âmbito mais interno e isolado do indivíduo.
Independente – privado significa algo que independe do grupo, que diz respeito a um indivíduo isoladamente, que não interfere no que é público nem sofre a ingerência da sociedade ou do governo.
Confidencial – privado significa algo que não pode ser conhecido nem observado, cujo acesso é liberado somente àquele (s) com quem se tem uma relação de confiança.
Protegido – privado significa secreto, escondido, reservado.

OPINIÃO
Precisamos entrar em acordo sobre o que é público e o que é privado antes de decidir o que pode/deve, ou não, ser “escutado”, e em que condições. E diferenciar monitoramento e espionagem.
Monitorar é um ato de acompanhamento de processo para fins de avaliação e aperfeiçoamento. É uma atividade continuada, transparente, em condições pré-definidas e com indicadores objetivos. Monitoramento não é o mesmo que espionagem. Espionar é um ato dissimulado de busca de informações secretas com a finalidade de obter vantagem numa situação de perigo ou disputa - o medo é a justificativa e o resultado é o enfraquecimento ou eliminação de uma das partes.
O público deve ser monitorado.
O privado deve permanecer privado.
Dados da vida privada não devem ser misturados com os da vida pública.
Somente em caso de suspeita de crime, a Justiça (civil e de carreira, não a política) pode autorizar espionagem, desde que com regras muito claras - que informações podem ser armazenadas, onde e por quanto tempo; como é o acesso a essas informações.