Pensar e imaginar
Devemos refletir sobre as palavras e também imagens que compõem nosso imaginário. Investigar como elas vieram para lá e para onde nos levam.
Imagine um ladrão. Qual é a imagem que aparece para você? Um mascarado com um porrete ou pistola na mão? Alguém invadindo uma casa ou escritório? Um cão latindo? Uma pessoa bem vestida mexendo em papéis, notas de dinheiro, cartões de crédito? Um hacker na internet? Um indivíduo com dólares na cueca ou na mala?
Imagine um fundamentalista. Seria um político, um religioso? Como é essa pessoa? Um muçulmano? Um clérigo da Inquisição? Um sionista? Um pentecostal? Quem sabe um magistrado decidindo contra liberdades individuais, pesquisa com células tronco, direito ao aborto?
Imagine o paraíso. Um jardim das delícias? Um universo particular com as pessoas e as coisas que você mais gosta? Uma epifania socialista? Uma chatice povoada de anjos assexuados?
E o inferno, como imagina? Serão os outros, como sugeriu Sartre? Diabinhos e labaredas? O comunismo pintado nas Seleções do Readers’ Digest? O liberalismo econômico do bordão fora FHC? As misérias no caminho de Dante?
Imagem, imaginar, imaginário
Se para pensar necessito palavras, para imaginar utilizo linhas e pontos que formam figuras, ícones, quadros, seqüências. Essas imagens podem ser visuais, sonoras, olfativas, gustativas, tácteis e metafóricas. Os sentimentos que evocam e as histórias que as acompanham integram o repertório da imaginação. Mas de onde se originam tais representações mentais? Do ambiente e do contexto cultural em que estamos inseridos; do que os sentidos apreendem em primeira mão, a partir do ambiente, dos seres com quem se convive, das vivências e lembranças, individuais e coletivas.
São muitas as portas de entrada para a percepção: a natureza, com as paisagens e todos os seres vivos e elementos inanimados que as povoam; os fenômenos físicos e o clima; o mundo construído pelo homem, com toda a infra-estrutura, a cidade, os meios de transporte e de comunicação, as máquinas, a tecnologia, a ciência; os idiomas, a música e todos os sons, as obras manifestações artísticas de toda a sorte; livros, jornais e revistas, cinema e televisão, tudo o que se acessa na internet; as relações sociais; e assim por diante. Quanto mais amplo e mais variado meu universo, de mais elementos disponho para construir meu imaginário.
É o contexto que ordena e formata essas imagens, influenciado pelo próprio indivíduo e tudo o que o cerca: o meio físico, a sociedade, a cultura.
O imaginário funciona também como um mercado de consumo poderoso: pode inspirar, gerar anseios, atitudes, mudanças, medos, ousadias. O efeito pode ser imediato e explícito ou ficar latente, arquivado, e despertar mais tarde por uma circunstância qualquer. Daí a importância da indústria cultural, que influencia nossos corações e mentes.
Significados
Imagem, imaginar, imaginário. É interessante observar que essas palavras são quase iguais em outros idiomas (espanhol, francês, italiano, inglês, alemão). A origem é latina e remete a imitação e a interior.
Imagem – a representação figurativa concreta de um ou mais objetos, pessoas ou situações. É como um desenho, quadro ou cena que descreve uma realidade, real ou sugerida. A imagem tem uma existência externa, portanto ela é coletiva.
Imaginar – fazer uma representação mental interna, livre, pensada ou sonhada a partir de um conjunto de imagens reais ou sugeridas. Imaginar é, portanto, uma atividade individual. Faz referência à realidade conhecida para projetar uma outra realidade. Seu significado contém idéias como visualizar, conceber, supor, cogitar, simular, adivinhar, antecipar, sonhar, fantasiar, desejar, idealizar.
Imaginário – o repertório ou universo de imagens, reais ou sugeridas, de que dispomos para imaginar. Pode ser individual ou coletivo (se aplicado a um grupo delimitado).
sábado, 4 de outubro de 2008
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